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De onde vem esse pensamento?

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Escrito por Maya Lakshmi

Várias pessoas já tinham me recomendado um filme com título curioso: Como água para chocolate (1992, México). Finalmente consegui assistir a esse filme e quero compartilhar algumas reflexões com vocês. Esse título marcante se refere a uma tradição mexicana de fazer chocolate quente à base de água (e não de leite, como somos acostumados). O título, então, abarca toda a experiência das personagens do filme: efervescência.

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Como água para chocolate conta a história de Tita, uma mulher nascida na cozinha de sua casa e desde então ligada ao universo da culinária de forma mágica. Ela é marcada pela tradição local de que a última filha não pode se casar e nem ter filhos, para que assim possa cuidar de sua mãe na velhice. O destino acaba fazendo com que ela e um jovem local, chamado Pedro, se apaixonem desde a adolescência. Aparentemente por falta de alternativas, Pedro decide se casar com uma das irmãs de Tita, para assim ficar perto dela.

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A narrativa do filme é feita por uma sobrinha neta de Tita, que se baseia num livro de receitas que sua tia avó escreveu ao longo da vida, misturando receitas com relatos pessoais. Culinária e sentimentos, como toda forma de trabalho que realizamos com paixão, se misturam de forma indissociável nesse filme incrível que consegue ser dramático, profundo, mas também mágico e cômico em alguns momentos, apresentando fortes traços de realismo fantástico.

O filme é uma adaptação de um romance homônimo escrito por Laura Esquivel, que também fez o roteiro do filme. Essa obra gira inteiramente em torno de mulheres, sejam elas boas ou ruins, fortes ou fracas e só de possuir esse enfoque já se tornou uma referência no universo de estudos do Sagrado Feminino.

De fato, é muito tocante ver a relação entre Tita e Nacha, a cozinheira da família que se torna uma verdadeira mãe para essa menina com um triste destino marcado. Conhecimentos sutis sobre receitas e remédios são repassados de forma costurada ao afeto que Nacha tem por Tita. E é assim que geralmente construímos muitos de nossos caminhos, trilhando rotas já mapeadas por nossos familiares ou pessoas que se tornam referências (como professores, por exemplo) e é ótimo quando isso acontece pela via do amor e da admiração na qual espelhamos nossas escolhas.

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Quando o filme terminou eu estava emocionada com a jornada épica que tinha acabado de acompanhar, contada de forma tão agradável e emocionante. Mas estava revoltada também com a passividade de muitos personagens diante do que eles chamaram muitas vezes de tradição familiar e cultural. No tempo em que vivemos é difícil ter total empatia com o drama de pessoas que estavam amarradas, “simplesmente”, a um costume que poderia ter sido quebrado pela vontade deles, nem que o preço a ser pago fosse a exclusão daquele núcleo familiar.

Muitas vezes eu me vi questionando o porquê de Tita e Pedro não terem fugido antes de ele casar com sua irmã. Essa inquietação me fez olhar para as tradições familiares ou culturais que eu acabo seguindo sem prestar atenção e simplesmente me deixando levar como se fosse o natural.

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E é sobre isso que eu quero falar hoje. O caso do filme, que usei como mote para chegar até aqui, é bem extremo e faz parte de uma época repleta de regras rígidas. Mesmo assim, não é por vivermos em outro tempo histórico que estamos isentos de moldar nosso caminho a padrões introjetados em nosso psiquismo. A questão não é descartar toda e qualquer forma de tradição, mas o que eu quero é fazer um convite para que você observe sua vida, seus sonhos futuros e veja se não está faltando autenticidade no seu caminho.

Algumas tradições são extremamente benéficas e constituem um compilado de gestos, rituais e crenças que preenchem nosso senso de pertencimento e identidade, mas, às vezes, em um mesmo núcleo familiar (ou de um grupo de pessoas do qual você faça parte, tais como religião, profissão, ideologia política…) encontramos pensamentos e hábitos repassados como verdade e que limitam nosso potencial e nossa criatividade.

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Em décadas passadas era mais fácil compreender o termo tradição e, por isso, uma associação que eu fiz com o tempo em que vivemos é o de padrão de crenças. O assunto de crenças fortalecedoras ou bloqueadoras será abordado em futuros textos, pois tenho me deparado muito com essa temática e acompanhado cotidianamente, tanto na minha vida pessoal quanto no meu trabalho como terapeuta, o tanto que ela influencia nossas vidas. Uma boa definição de crença é dada por Vianna Stibal (criadora da técnica ThetaHealing), que diz:

Crença: A aceitação por parte da mente de que algo é verdadeiro ou real muitas vezes é sustentada por um sentido emocional ou espiritual de certeza.

Exemplos de crenças: o amor dá trabalho, o que é bom dura pouco, o dinheiro é sujo, ter sucesso exige muito tempo e esforço, a dificuldade une as pessoas e assim por diante. Crescemos em uma determinada cultura e ela, por si só, já vem repleta de crenças que são passadas de forma coletiva (já reparou que dá para fazer uma caricatura de um cidadão típico para cada região do nosso país? Aqui no Ceará, por exemplo, uma das crenças fáceis de identificarmos é a do bom humor ilimitado do nosso povo). Mas para cada núcleo familiar teremos crenças específicas da história de nossos antepassados. Imagine uma família em que a matriarca é sempre muito forte e repete inúmeras vezes que uma mulher não deve sofrer por homem. Como você acha que as filhas dela irão se sentir e se comportar diante de situações de fragilidade, ainda mais se o motivo envolver um homem? Bem capaz que elas se sintam erradas, que façam o possível para confirmar aquela “verdade” e acabem afugentando possíveis romances, ou tendo casamentos em que possam expressar essa força desmedida constantemente. E isso vai se perpetuando e passando de geração em geração, até chegar em uma pessoa que vive no nosso tempo, sendo influenciada por essa crença (que nem precisa mais ser manifestada em palavras, mas como uma característica entranhada nos hábitos dessa linhagem, como um tipo de matriz afetiva).

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Da mesma forma que Tita poderia ter escolhido outro caminho desde o início, nós também temos o poder de escolher quais são as crenças que valem a pena carregarmos conosco. Isso nem sempre é fácil, justamente porque elas estão revestidas de certezas e muitas vezes estão abaixo do que chamamos de consciência. Contudo, quando paramos para pensar sobre esse assunto e nos damos conta de que nem tudo que assimilamos ao longo da nossa vida é uma sentença real, ganhamos mais poder sobre elas.

Muitos de nós nutrimos a sensação de não ser bom o suficiente, então, um bom jeito de eliminar essa crença é provando nosso potencial em algo. Por ser um padrão de pensamento enraizado, teremos que nos provar bons o suficiente inúmeras vezes e manter nossa atenção sempre voltada para essa questão, senão podemos acabar voltando a esse lugar comum da nossa mente, como um disco arranhado, sabe? A técnica de cura energética que eu citei acima, o ThetaHealing, dispõe de um método mais assertivo para encontrar e purificar crenças, mas esse é um assunto para um próximo texto.

Pense nos seus pais, pense nas pessoas e histórias que te serviram como modelo e observe o tipo de crença que está sendo repassada a você como herança. Algumas tradições são mágicas e nos fazem um bem enorme. Eu diria até que deveríamos retomar ou inventar tradições familiares, se for o caso, porque elas alimentam o sentido de partilha, nos colocam em um tipo de moldura que nos dá força para atravessarmos um cotidiano que costuma ser carente de afetos e significados. Mas aquelas tradições sutis, as histórias de fracasso, escassez, mágoa ou seja lá o que for que te ligue aos seus familiares ou a qualquer grupo, podem ser rompidas e devem ser cuidadosamente observadas para não serem repetidas por você como sendo algo natural.

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A vida é muito maior e mais rica, cheia de infinitas possibilidades (veja o Universo do qual fazemos parte!) do que qualquer história de limitação que você tenha acreditado até então. Permita-se questionar tudo que tomou como verdade sobre você e o mundo, permita-se conhecer os caminhos fora desses limites herdados. Posso garantir que as consequências dessa aventura são sempre imensamente satisfatórias.

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Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

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