Conversando com os leitores

Mas o que é esse tal de Sagrado Feminino?

Sacred woman
Escrito por Maya Lakshmi

Com o crescimento constante de práticas, reflexões e vivências que compõem o Sagrado Feminino, é bem possível que você já tenha escutado essa expressão em algum momento. Conheço homens que sabem bastante sobre o assunto e mulheres que não fazem ideia do que esse nome realmente significa. Pior mesmo é quando eu encontro pessoas que criaram alguns preconceitos em torno dessa expressão.

Primeiro vamos entender o que eu quero dizer quando falo que trabalho com Sagrado Feminino ou quando uma mulher diz para outra algo assim: “esse seu problema poderia ser resolvido se você despertasse para o seu Sagrado Feminino”. Depois disso vou tentar explicar alguns conceitos superficiais e errôneos que foram sendo criados em torno dessa expressão.

Voltando ao tempo das primeiras expressões religiosas da humanidade, quando nos reuníamos em tribos correspondentes ao período neolítico, muitas evidências arqueológicas apontam uma característica em comum nos quatro cantos do mundo: o culto à Grande Mãe. Doadora, curadora e também ceifadora, essa Deusa assumiu muitos nomes e foi revestida com as particularidades de cada cultura. Por isso, hoje é também chamada de “A Deusa de dez mil nomes”.

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As mulheres, por serem representantes da Grande Mãe, tinham um lugar de muito respeito e autonomia dentro dessa forma de organização social. Importante ressaltar que o culto à Deusa não era uma forma de dominação feminina, a lógica dessa manifestação religiosa é muito mais igualitária do que a que o patriarcado acabou construindo. Todos os seres chegam ao mundo através de um útero e nossa sobrevivência só é possível porque este planeta nos fornece tudo de que precisamos – é como se a Terra fosse a mãe da humanidade. A natureza, então, era reverenciada como fundamento do culto à Grande Mãe. Talvez, se você pensar no conceito de Gaia ou Pachamama fique mais fácil de entender essa personificação em torno de uma deidade feminina.

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No início as pessoas oravam para a Criadora da Vida. No alvorecer da religião Deus era uma mulher. – When God Was a Woman, Merlin Stone.

Com a transição da sociedade de coleta para a de caça, características típicas do masculino tornaram-se mais valorizadas, tais como a força física, a dominação do mais forte sobre o mais fraco e a lógica do pensamento linear (enquanto o feminino possui uma lógica intuitiva, sensível). Assim, aos poucos, os mitos e ritos da religião da Deusa (doadora, ceifadora e regeneradora da vida) foram sendo substituídos pelo culto a divindades masculinas que validavam a cultura da dominação, da guerra.

E, como bem sabemos, a mulher foi perdendo seu lugar de autonomia e sua importância foi diminuída ao papel de coadjuvante. Esse processo está bem ilustrado no trecho a seguir, que eu encontrei como sendo da autoria de Clarissa Pinkola Estés, mas que não consegui confirmar a fonte exata de onde foi retirado:

Era uma vez uma mulher. Essa mulher era amada. Por ser amada, era reconhecida como inteira em si mesma. Por ser reconhecida, era livre para existir. Essa mulher vivia com os pés na terra e a cabeça nas nuvens, possuía todos os atributos de uma deusa. Era humana e ao mesmo tempo divina e havia algo de selvagem em seus olhos que nenhuma civilização ou religião poderiam domar. Por isso mesmo, essa mulher foi temida e, por ser temida, foi reprimida e banida do convívio dos demais. Ela foi queimada nas fogueiras da ignorância, amordaçada nas malhas da censura, presa nas correntes da indiferença. Após tantos séculos de repressão, aqueles que a haviam represado acreditavam que sua luz havia finalmente se extinguido; que sua natureza selvagem e aterradora havia desaparecido por completo. Porém, essa mulher faz parte da própria natureza, ela é a própria natureza e não pode ser aniquilada. De sua completude temos apenas resquícios, mas ela sobrevive nas histórias, nos contos de fada e no fundo da alma de todos, homens e mulheres que sentem um profundo sentimento de vazio e solidão em suas vidas.

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O movimento do Sagrado Feminino, portanto, é o retorno das mulheres contemporâneas a essa consciência de que seus corpos, ciclos, intuição, sensibilidade, dentre inúmeras características, são tão importantes que merecem ser reverenciadas. Quando dizemos que algo nos é sagrado, numa linguagem cotidiana, é uma forma de revestirmos algum objeto, pessoa ou situação num véu de máximo respeito e significado pessoal para nós, não é mesmo? Retomar o sentido da sacralização do feminino não é, necessariamente, voltar ao culto da Deusa enquanto religião (apesar desse movimento poder englobar essa característica), mas simplesmente honrar aspectos particulares da experiência biológica, social, psicológica e espiritual de ser uma mulher.

Alguns equívocos associados ao Sagrado Feminino que eu já escutei são:

  1. Impossível retomar esse sentido e despertar essa consciência no mundo em que vivemos hoje
  2. Eu não sou nada feminina e sinto que serei excluída pelas mulheres que já estão nesse caminho há mais tempo do que eu
  3. Não tenho nenhum contato com nenhuma forma de espiritualidade e, para seguir esse caminho é preciso ter algum tipo de fé
  4. Sagrado Feminino e Feminismo são a mesma coisa
  5. Sagrado Feminino e Feminismo são totalmente opostos

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Então, muita coisa para discutirmos aqui, não é mesmo? Vou explicar os três primeiros equívocos e darei uma breve pincelada sobre as semelhanças e diferenças entre o movimento do Sagrado Feminino com o Feminismo, pois este tema é gigantesco e merece um texto só para ele, ok? Vamos lá:

  1. Nosso estilo de vida atual é, em grande parte, muito distante das nossas características mais primitivas. Muitas mulheres estão tão desconectadas de seus corpos que mal conhecem as características de suas menstruações, tomam pílulas anticoncepcionais de forma contínua, sentem muito desconforto físico e emocional em torno dos ciclos de sangrar mensalmente, gerar uma vida e encerrar essa jornada com a menopausa. Mas retomar esse contato com o próprio corpo é algo que exige apenas disponibilidade de autoconhecimento. Muitas das doenças relacionadas ao sistema reprodutivo feminino são frutos dessa extrema desconexão. Nossas ancestrais tinham um bonito ritual de doar seu sangue menstrual para a Deusa, fazendo o que se chama de plantar a lua. Esse ritual pode ser feito de inúmeras formas (tá, acho que só esse tema dos ciclos do feminino merecem um texto próprio também), mas o que realmente importa é a mulher reconhecer como uma dádiva a chance de se renovar fisicamente e energeticamente todos os meses. O sangue menstrual, sob esse ponto de vista, ganha um revestimento de sagrado, ao contrário do que crescemos aprendendo sobre ele ser sujo, ser um incômodo, um atraso na vida das mulheres em comparação aos homens e algo que devemos evitar de falar em público. Qual é a tonalidade de cor do seu sangue? Você já teve a sensação de tocar nele com reverência ao invés de evitá-lo a todo custo com absorventes extremamente artificiais? Você sabia que ele é muito rico em nutrientes e ajuda demais no cuidado de plantas? Só mudar o paradigma em torno da menstruação já é um baita avanço em direção a se conectar com seu Sagrado Feminino.
  2. É comum vermos fotos de mulheres cobertas de flores, com saias e cabelos longos, dançando em círculo numa floresta ou se banhando juntas em uma cachoeira e associarmos tudo isso ao Sagrado Feminino. Você poderia pensar: “poxa, eu trabalho 40 horas por semana em uma empresa, uso calça social e salto todos os dias e não me identifico com nada disso” ou, então, “eu gosto de ter um jeito que as pessoas consideram masculinizado, uso tênis todos os dias e não faço ideia de como me maquiar, acho que esse movimento não tem nada a ver comigo”. Essas fotos são a representação da extrema entrega de mulheres que querem experimentar o seu feminino da forma mais natural possível. Essas fotografias são tiradas em vivências específicas e não demonstram o cotidiano delas. Além do que, uma mulher que desperta para o seu Sagrado Feminino aprende que é livre para escolher o que a faz se sentir melhor, independente disso ter o rótulo de feminino ou não. A base dessa consciência autorrespeito e autocuidado. Aprender a se amar em sua integralidade e, como mulheres, não podemos fazer isso excluindo, renegando e maltratando nosso corpo e nossa subjetividade.
  3. Você não precisa mudar nada em termos de fé. O máximo que é necessário aqui é retomar a sabedoria milenar de que todos somos filhos dessa grande Mãe Terra, relembrar que se é uma parte integrante da natureza e, por isso, você tem o direito de se harmonizar com o que há de natural em você; poder se reintegrar a esse princípio básico de que estamos todos ligados de uma forma ou de outra, quebrando a sensação de isolamento e artificialidade que é tão adoecedora para nós.

Para finalizar, o que eu posso dizer agora sobre Feminismo e Sagrado Feminino é que eles são movimentos diferentes, mas com vários pontos em comum e alguns pontos divergentes também. O Feminismo é uma filosofia/ideologia/visão política sobre a liberdade, igualdade e autonomia da mulher em relação aos homens e ao acesso à educação, saúde, condições justas de trabalho (dentre outras pautas) e é, também, uma forma de se despir de paradigmas historicamente construídos quanto a um papel específico sobre ser mulher e ser homem em sociedade. O Feminismo, assim como o Sagrado Feminino, não visa uma supremacia da mulher, muito pelo contrário, busca o equilíbrio dessas polaridades.

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Contudo, uma mulher feminista pode estar empoderada socialmente, mas ainda assim estar distante da harmonia com seu corpo e acabar assumindo um padrão dominador e agressivo, por exemplo, negando seu Sagrado Feminino como uma tentativa de ser escutada em sua luta política. Ser feminista não garante que ela está alinhada com tudo isso que discutimos aqui sobre esse despertar de uma consciência ancestral. Da mesma forma que uma mulher que vivencia o Sagrado Feminino pode não ter se dado conta, ainda, de alguns padrões de pensamento e comportamento que ela reproduz do machismo, entende?

Em breve retomarei esse assunto extremamente complexo e amplo e prometo explicar melhor esse comparativo. Por enquanto encerro esse texto explicando apenas que existem grupos no Facebook, centenas de livros, músicas e vídeos sobre Sagrado Feminino para quem se interessar pelo assunto.

No meu trabalho como terapeuta, ouvindo tantas histórias de mulheres fragilizadas por estarem desconectadas dessa consciência da sacralidade do feminino, decidi me aprofundar mais no assunto e passá-lo adiante. Esse texto, assim como o grupo terapêutico de mulheres que eu facilito, fazem parte desse compromisso de ser um canal para que esse chamado ao Sagrado Despertar chegue ao maior número possível de pessoas. Informações como essas, que eu encontrei em diversas fontes – incluindo conversas memoráveis com outras mulheres despertas –  foram de grande ajuda para que eu pudesse me harmonizar com meu feminino. Sou muito grata por isso e desejo de todo meu coração que essas palavras façam sentido para você e te ajudem de alguma forma na sua jornada de autoconhecimento.

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Algumas indicações:

Esse documentário maravilhoso sobre o Resgate do Feminino Sagrado: https://www.youtube.com/watch?v=XdEK0co_Gaw

O livro no qual eu baseio os encontros do grupo terapêutico que facilito: Mulheres Que Correm Com Os Lobos – Mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem (Clarissa Pinkola Estés).

Outro livro que indico (e que foi a fonte para boa parte dos aspectos históricos que discuti nesse texto): Círculos Sagrados Para Mulheres Contemporâneas – Práticas, rituais e cerimônias para o resgate da sabedoria ancestral e a espiritualidade feminina (Mirella Faur).

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

9 Comentários

  • Curioso notar que antes do “sistema patriarcal” dominar as mulheres ocupavam posições importantes não no sentido de poder, mas de sabedoria, provavelmente os homens e o ser humano em geral achava mágico/divino algumas características das mulheres como intuição e a própria capacidade de gerar outra vida. O homem (no sentido de sexo oposto) tentou até mesmo replicar a capacidade de gerar outra vida através de experimentos científicos como os “Homunculus” aonde ele tentava excluir a mulher no sentido de perpetuar a espécie…. as vezes acho que o mundo machista nasceu da ignorância do homem em saber lidar ou estudar certos aspectos femininos além destes… quase como uma demonstração de inveja.

    • Sim, dá mesmo essa sensação de que os “mistérios” do feminino causaram medo e por isso começaram a ser eliminados para caber na lógica masculina. Ótima observação Marden.

  • Oi, linda. Sou mulher trans e vi seu contato no site Transerviços. Gostaria de marcar consulta, mas sou muito tímida pra perguntar pessoalmente e tenho muitas dúvidas sobre essas coisas de sagrado feminino (nunca ouvir falar, achei incrível!). Podemos falar por email? Beijos!

    • Liliane, que alegria receber sua mensagem!
      Como a Maraysa disse, você pode usar o formulário de contato para nos perguntar qualquer coisa por e-mail. Mas pode também falar comigo por telefone/whatsapp, as informações estão aqui: http://caminhosterapeuticos.com.br/consulta/

      Uma das principais técnicas com a qual trabalho atualmente é o ThetaHealing, para entender um pouco mais pode dar uma olhada nesse texto: http://caminhosterapeuticos.com.br/2017/03/12/a-cura-da-alma-parte-2/

      Eu faço atendimentos voltados para o despertar do Sagrado Feminino que são individuais e adaptados ao universo particular de cada mulher. Chamo esse ciclo terapêutico de ‘Caminho da Deusa’. Uma boa forma de autoconhecimento e autocuidado, além da transformação de crenças bloqueadoras em crenças empoderadoras. E qualquer mulher é muito bem-vinda nesse Caminho. Aguardo seu contato ^.^

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