Psicologia Transpessoal Psicoterapia

Culpa e Amor próprio

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Escrito por Maya Lakshmi

Semana passada surgiu na Netflix um filme bastante interessante: Labor Day. Confesso que ele será desses filmes que eu não esquecerei. Tentei fazer uma resenha sobre ele, mas o texto ganhou vida própria (como quase sempre acontece) e eu percebi que ele foi só o empurrão necessário para que eu escrevesse sobre culpa e autoamor.

Pelo trailer você pode achar que o filme é um romance e, apesar de ter esse elemento, essa história é muito mais sobre um filho cuidando de uma mãe emocionalmente doente. Logo nas primeiras cenas nós podemos ver o peso que Henry carrega pelas dores de sua mãe, Adele. Senti profunda compaixão por esse personagem introspectivo que tenta lidar com um mundo de dores e sombras muito maiores do que ele. Nós subestimamos muito as crianças. Conversamos com elas ao lado como se elas não estivessem prestando atenção, e minimizamos sempre as marcas que causamos a elas.

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Como psicoterapeuta eu vejo todos os dias meus clientes adultos (não importa a idade) se deparando com essas marcas da infância, assumindo agora a responsabilidade por cuidarem de si mesmos. Revisitar essa época de formação da nossa personalidade é uma parada praticamente obrigatória de um processo de autoconhecimento. Se faz necessário relembrar (e, em alguns casos, re-experienciar) essas marcas a partir de outra perspectiva. Quando isso acontece, quando se leva mais consciência e amor para a criança que fomos, há cura e transformações muito significativas em quem somos e queremos nos tornar.

O que Henry queria fazer pela mãe era salvá-la do luto por inúmeras perdas que ela teve em sua vida, claro que ele não tinha totais condições de perceber que isso era impossível. Ele tomou para si uma responsabilidade que era exclusiva de Adele e, por isso, se culpava por não conseguir ser bem-sucedido em sua missão autoimposta. Ele é um menino sério, tem um semblante sombrio praticamente o tempo todo do filme. É como se ele não se permitisse ser leve e feliz sabendo que sua mãe estava tão triste.

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Henry e Adele

Repita esse mantra todos os dias se for necessário: ninguém pode salvar ou mudar ninguém. Como se diz num ditado nativo norte-americano: as portas da mudança só se abrem de dentro para fora. Não tomem para si o dever de curar quem quer que seja. Não importa se essa pessoa é sua mãe, irmã, marido, filho ou um cliente. Para uma psicoterapeuta essa frase pode ser estranha, não? Muito pelo contrário! Só consigo ter o meu trabalho porque tirei de mim essa responsabilidade. Já pensou como seria atender várias pessoas por dia, com inúmeras histórias de vida complexas – e feridas de alma – me responsabilizando por curar cada uma delas? Certamente eu já teria enlouquecido.

Tudo que posso fazer como terapeuta é estar presente, ouvir com meu coração e com todo o arcabouço de conhecimento teórico e vivencial que eu tenho, colocando-me à disposição do cliente, em sua busca pessoal, em sua jornada de autodespertar. Eu sou uma companhia para essa jornada, mas não sou a responsável pelo ritmo ou pela direção. Eu só posso ajudar o cliente na medida do que ele permite e pode suportar em cada momento dessa viagem interior.

É evidente que eu me sinto feliz quando posso ver algum cliente saindo de uma depressão, se libertando de um relacionamento abusivo, dentre inúmeros exemplos. Mas eu não sou a responsável por nada disso. Saber que a jornada é de responsabilidade de cada um é libertador para mim e não apenas como profissional. Essa compreensão nos liberta da culpa por conviver com pessoas que amamos, mas que não estão prontas para cuidarem bem de si mesmas.

Daqui nós passamos para o segundo tema, que está totalmente relacionado com tudo que eu disse até agora. Penso que amor próprio é um dos temas mais importantes a ser trabalhado em um processo terapêutico. Quando aprendemos a nos amar, nós resolvemos várias questões dolorosas e limitadoras da nossa vida, é como a peça coringa de uma espiral de dominós, sabe?

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Adele, como fica evidente no próprio trailer, é uma mulher triste, que foi se limitando cada vez mais desde que seu marido a deixou. É como se esse abandono do outro fosse uma prova do quanto ela é insuficiente, incapaz de alguma forma, não amável. O marido vai embora e ela também se abandona. Vocês provavelmente já conheceram alguém que definhou após o fim de uma relação, não é mesmo?

Uma pergunta ficou gritando na minha cabeça em vários momentos do filme: por que ela não podia se amar?!? Esse questionamento não tem apenas a ver com o fato de eu ser psicóloga. Cresci observando situações como essas, na ficção ou na vida real, e isso sempre me inquietou. Da mesma forma que nunca acreditei em alma gêmea e esse melodrama em torno de você precisar de outra pessoa para estar completo. Essa consciência sempre esteve comigo, desde o mais longe que minha memória alcança. Como ela se formou eu não posso precisar, mas é fato que ela sempre me foi útil, em saber que o meu valor pessoal é intrínseco ao simples fato de eu existir e não por qualquer medida externa.

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Para mim

Somos inteiros. Essa é a nossa natureza essencial. Estamos fragmentados quando não tomamos consciência sobre vários aspectos da nossa vida, do universo dos nossos sentimentos. E é claro que ser amado por outras pessoas é enriquecedor e eu diria que todas as formas de relacionamento interpessoal são ferramentas essenciais para o nosso processo de integração. Os outros são sempre os melhores professores, os melhores espelhos para o que estamos sentindo se soubermos refletir de forma comprometida sobre nós mesmos. Contudo, não precisamos de ninguém para nos amarmos, para sermos felizes com quem somos.

Se não fosse assim, bastaria termos tido pais que nos amassem para sermos felizes de forma real e consistente. Caso não tivéssemos essa sorte, poderíamos procurar ter um casamento cheio de amor para resolver esse problema. Mas não é assim, não é mesmo? Pois é. A maioria de nós tem famílias amorosas (claro, todas as pessoas com quem convivemos também estão nessa estrada de integração, logo, sempre há limitações pessoais), mas o cerne da dor, da tristeza e do vazio constante é no circuito interno de amor. Quando isso acontece é como se tivéssemos um buraco no peito e, mesmo que flua amor de fora para dentro, ele se esvai.

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Felicidade é um trabalho interno

É claro que essa fonte externa de amor é importante para todos nós, mas ela nunca será suficiente, porque ela não é a origem da questão. O mandamento cristão sobre amarmos uns aos outros como amamos a nós mesmos não poderia ser mais desafiador e completo. Autoamor não tem nada a ver com egoísmo, pois não é um sentimento que esteja sob domínio do ego, mas sim da alma. Quanto mais nos amamos, mais amorosos ficamos com tudo ao nosso redor. Quando verdadeiramente aprendemos a honrar nossa existência, a ter gratidão pelo corpo que vestimos, pelo conhecimento que nos rodeia, por todas as situações de vida que já tivemos e que nos ajudam a estar aqui, exatamente no momento mais importante que existe – o agora, o momento do despertar – se torna impossível ferir a quem quer que seja.

Autoamor é reconhecer nossa fonte de criatividade divina, nossa natureza primordial como um ser que faz parte desse grande e misterioso Universo, como uma parte essencial da teia da Vida. Essa compreensão rompe com a ilusão de isolamento. Dessa luz que despertamos em nós vamos irradiando amor para tudo que tocamos. É por isso que esse mandamento cristão é completo, no sentido de trazer paz e compaixão para a humanidade.

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Ele é desafiador porque criamos várias distorções sobre quem somos e sobre o que é amor próprio. Para nos amarmos de uma forma realmente significativa para transformar nossas vidas precisamos, inicialmente, acessar e começar a purificar as fontes de culpa, medo, crença de insuficiência, mágoas e qualquer sentimento que seja destrutivo. Não importa se odiamos alguém ou a nós mesmos. Acho que não há uma diferença fundamental nessa separação. É a ilusão do isolamento que nos diz isso. Quando odiamos algo “fora de nós”, quando somos raivosos, quando somos vingativos nós estamos sempre entrando em contato com uma fonte de destrutividade interna. Odiamos o fora porque há ódio interno, senão isso não seria possível, percebe? Como eu poderia dar algo que eu não possuo?

Tudo acontece ao mesmo tempo: vamos começando a acessar essas fontes internas e a exercitar ter amorosidade por nós mesmos, pelo estágio em que ainda estamos e isso intensifica o processo de purificação. É uma cadeia de sentimentos interdependentes. Para desbloquearmos esse fluxo de despertar da nossa consciência, precisamos dar o primeiro passo de querer olhar para as nossas sombras, para o porão de negatividade que ainda guardamos em algum lugar de nós. Isso não precisa ser tão assustador se pensarmos que todos nós temos esse porão e que mesmo as pessoas mais experientes no caminho do autoconhecimento ainda vão se deparar com negatividades para serem trabalhadas. A única diferença é que elas já despertaram o autoamor e são mais pacientes e compassivas com elas e com todos ao redor.

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Um lembrete importante: amor não tem nada a ver com falta de limites, com tolerância infinita. Uma pessoa que se ama verdadeiramente aprendeu a diferenciar vontades da alma ou desejos do ego, ela consegue ser disciplinada no que é importante, sempre buscando ter mais construtividade na sua vida, mais saúde, mais conhecimento, mais paz. E é assim com o amor que devotamos aos outros. Amar é, em grande parte, um ato de cuidado e cuidar é ensinar, é ajudar no desenvolvimento de potencialidades interiores.

Amar a si mesmo vai se tornando mais fácil e natural com o tempo. Nos olhamos no espelho e não julgamos tão mal a nossa aparência, cometemos algum erro e não sentimos mais a necessidade de nos crucificar por conta disso, escolhemos com mais sabedoria o que vai nutrir a nossa vida (alimentos, cultura, relacionamentos…), mas acredito que num mundo cheio de distorções como este, tudo se trata de cultivar diariamente as boas atitudes, os bons sentimentos. Como todo treinamento, aprender a se amar exige prática, determinação e paciência.

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Eu sou um todo. Sou boa o suficiente. Sou digna. Sou amada. Sou amor.

Essa imagem acima é ideal para iniciar uma prática de autoamor. Treine repetir essas palavras várias vezes por dia e se esforce por sentir a vibração que elas causam no seu coração. Nos olhos dela tem compaixão e bondade. Na garganta tem beleza. E é exatamente isso que buscamos primeiro em nós para sermos capazes de multiplicar por fora. Trate-se como você trata as pessoas que mais ama, que mais deseja que sejam felizes.

Se esse texto chegou até você num dia difícil, pesado e cinza, estou aqui para dizer que isso não vai durar para sempre. Não desista de você, esse preço nunca vale a pena se pagar. Não tem absolutamente nada de errado em pedir ajuda quando estamos nos sentindo sem forças de fazer algo sozinhos. Estou aqui para dizer que em toda escuridão há um foco de luz esperando para ser visto e ampliado. Estamos todos numa jornada de autoconhecimento e purificação das nossas sombras e podemos ajudar muito uns aos outros com nossas experiências e apoio mútuo. Permita-se receber ajuda, despertar sua luz interior é o trabalho mais importante da sua vida e, como estamos todos conectados, a luz de cada um de nós é importante para o Todo. Acredite.

Se precisar de uma forcinha para sentir essa conexão com essa grande teia da Vida, veja esse vídeo e se inspire. E lembre-se que este site é feito por duas terapeutas que estão à disposição para tirar dúvidas e dar apoio profissional, não hesite em falar com a gente se for isso que seu coração pedir, essa voz interior é a única bússola que vale a pena seguir. =]

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

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