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Amy Winehouse – uma batalha perdida

amy
Escrito por Maya Lakshmi

No documentário Amy (2015), nós temos a chance de conhecer a face humana de uma grande diva da música. Confesso que nunca fui fã nem muito conhecedora do trabalho de Amy Winehouse, mas mesmo morando em Fortaleza, enquanto ela vivia em Londres, não passei incólume ao sucesso dessa jovem cantora. Contudo, o que soube dela não foi tão positivo assim. As manchetes que chegaram até mim sempre diziam de um enorme talento aliado a uma vida desregrada de intenso consumo de drogas.

Neste documentário, que venceu o Oscar deste ano, pude entender os motivos que levaram Amy a se autodestruir e passei a admirar seu talento. Logo no começo do vídeo nós conhecemos uma menina alegre que estava dando seus primeiros passos na música. Ela não sonhava em ser uma grande artista, não imaginava ter uma carreira na indústria musical, pois compor e cantar faziam parte da sua vida como um passatempo, uma forma de ela lidar com seus problemas emocionais.

Mas seu talento era tão único que as coisas começaram a dar muito certo para ela. Ou muito errado, você também poderia pensar. Esse documentário é capaz de nos fazer questionar a importância que damos ao sucesso, dinheiro e fama. Se Amy não tivesse sido atropelada pelo próprio brilhantismo, talvez ela ainda estivesse viva, talvez ela tivesse tido mais chances de encontrar um caminho que fosse construtivo.

Young amy Winehouse

No próprio trailer você pode vê-la dizer que não imagina que será muito famosa, que ela não aguentaria isso e que provavelmente ficaria louca. Ali era uma Amy muito mais equilibrada falando sobre algo que realmente lhe aconteceu. Em um nível profundo ela sabia que não tinha a força necessária para aguentar a pressão da mídia e uma mudança de vida tão grandiosa quanto se tornar uma estrela da música. E você pode estar se perguntando agora por que, então, ela se permitiu seguir esse rumo. Minha interpretação sobre este fato pode parecer estranha, mas acredito que a fama teve para ela o mesmo efeito das drogas: foi um caminho de autodestruição que ela abraçou como fuga da vida que tanto lhe pesava – uma forma de colocar um fim em si mesma.

Não demora muito para o documentário começar a apresentar os motivos dos sofrimentos psíquicos de Amy. Sua mãe, Janis Winehouse, conta o seguinte:

Eu percebi desde cedo que quando Amy decidia uma coisa, estava decidido. Eu tinha dificuldade de me impor diante dela. Ela dizia: “Mãe, você pega muito leve comigo, eu sempre escapo da bronca. Você deveria ser mais rígida”. Eu aceitei isso. Eu não era forte o suficiente para dizer “pare!”.

Seu pai, Mitchell, conta que teve um caso com uma mulher do trabalho quando Amy tinha por volta de um ano de idade, mas ele só saiu de casa quando ela tinha nove anos. Apesar de ele afirmar que Amy superou a separação bastante bem, ela conta uma história diferente. Amy demarca a separação de seus pais como a época em que ela sentiu que podia fazer o que quisesse, mas cita apenas comportamentos reprováveis socialmente, como falar palavrão, faltar na escola para levar namorados para sua casa.

Este é um comportamento comum em adolescentes que querem chamar a atenção de seus pais. No fundo, o que ela parecia querer fazer era pedir ajuda, pedir que esses pais olhassem para ela, nem que o custo disso fosse seu próprio bem-estar.

amy_winehouse2Uma prova da falta de atenção de seus pais, muito claramente, é o fato de que Amy desenvolveu bulimia desde os 15 anos e nunca recebeu tratamento para essa doença. O mais absurdo é que ela contou para sua mãe mais ou menos assim: “mãe, descobri uma ótima dieta, eu como tudo que quiser e depois coloco para fora”. Sua mãe diz que na época não deu muita atenção a isso, achou que ia passar naturalmente. Amy também contou para seu pai, mas este também não fez nada a respeito.

Durante sua adolescência ela tomou antidepressivos e disse que tocar e cantar eram suas fugas para a melancolia, mas o uso de drogas e a bulimia nunca foram devidamente tratados. E mesmo que ela tomasse antidepressivos, não é falado em momento algum do filme que ela fez acompanhamento com um psicoterapeuta e, sem isso, fica bem difícil chegar ao cerne emocional de seus conflitos.

Em vídeos caseiros que mostram Amy em sua adolescência, podemos vê-la comendo muito, ganhando e perdendo peso constantemente e, num almoço em família a vemos dizer: “eu sei que sou uma porca, mas não consigo evitar”. Se isso não for um indício do quanto ela não se aceitava, do quanto tinha problemas de autoimagem e não sabia ter uma relação saudável com a alimentação, não sei o que mais pode ser. Talvez, porque eu sou psicóloga, se torne gritante demais para mim esses pedidos de ajuda que ela lançava aos seus pais. Mas sinceramente acho estranho que ninguém notasse o quanto ela precisava ser compreendida.

Quando Amy se tornou mundialmente famosa, ela rapidamente começou a chamar a atenção da mídia para seu uso abusivo de drogas e perda de peso excessiva. Essencialmente, o topo de sua carreira ficou compreendido nos anos 2006, 2007 e já em 2008 ela começou a se afastar dos palcos por conta de seus problemas emocionais. Já bem perto de sua morte, em 2011, ela foi levada contra sua vontade para uma turnê e diante de uma platéia imensa ela apareceu visivelmente alterada e, com um sorriso de deboche, se recusou a cantar.

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Podemos entender seus motivos para isso quando sabemos que ela disse ao seu guarda-costas que trocaria seu talento pela chance de andar pelas ruas sem tantas atribulações. Sua morte ficou atribuída a uma parada cardíaca causada por excesso de bebida combinado com distúrbios alimentares. No dia anterior ela ligou para uma amiga de infância e pediu desculpas por tudo, repetidas vezes. Amy estava em profunda solidão, perdida na escuridão que ela criou para si mesma enquanto tentava ser salva por pessoas que não tiveram a força e a atenção necessária.

Talvez, uma parte de si, uma sombra, quisesse falhar como cantora, quisesse chegar ao limite da autodestruição, quem sabe para provar aos pais que eles falharam com ela. Seu pai, por quem ela nutria profunda admiração, como está dito na música Rehab, foi o responsável por não querer interná-la em um momento que teria sido crucial para sua melhora. Ele estava preocupado com os shows que Amy tinha para fazer e priorizou a carreira da filha, fechando os olhos ao que ela indicava lhe ser essencial.

Poderia passar muito tempo falando sobre o quanto Amy se sabotou ao dizer que só aceitaria a reabilitação se seu pai achasse que era o que ela precisava. Esse foi um ponto que me chamou muita atenção. Talvez fosse um teste inconsciente para ver se seu pai a enxergava e, além disso, se ele iria abrir mão do dinheiro envolvido em romper contratos para que ela pudesse se tratar. Penso nisso como uma sabotagem porque Amy já deveria saber àquela altura onde estavam as prioridades de Mitchell, mas ela colocou seu bem-estar em risco, de novo, não tomando para si a responsabilidade de cuidar de si mesma.

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O que eu entendi ao ver esse documentário é que Amy amou seus pais profundamente e que disse a eles de diversas formas que ela precisava de limites, que tinha dificuldades em se cuidar sozinha. Mas mesmo se tornando adulta ela continuou com esse jogo silencioso, em que só ela saia mortalmente ferida, talvez numa tentativa de não admitir para si mesma que nesse aspecto ela estava sim sozinha, que cabia a ela buscar o caminho do cuidado de si. Sem a ajuda de um terapeuta, de alguém que pudesse enxergar esses padrões destrutivos, de alguém que a acolhesse e fosse uma companhia segura para o seu processo de achar as respostas em si mesma, Amy continuou perdida e o único vencedor do jogo que ela jogou a vida inteira foram suas sombras.

Que exemplos como este nos despertem cada vez mais para as nossas sombras, para os nossos pactos silenciosos de vingança, para os jogos de autodestruição que jogamos, muitas vezes, na tentativa de atingir o outro. A verdadeira liberdade não é estar isento de limites, à deriva. Liberdade implica responsabilidade, maturidade emocional, implica termos o poder de escolher o melhor para nossa vida.

 

Ficha Técnica

Amy: The Girl Behind the Name

Direção: Asif Kapadia

 

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

3 Comentários

  • Muito rica a conclusão desse texto, enfatizar que a liberdade não é, em definitivo, uma existência sem limites. Essa é uma impressão recorrente em diversas pessoas que adotam a rebeldia como um traço de personalidade, sem se darem conta de que são escravos de suas más escolhas, que irá destrui-los gradativamente.
    Serve de consolo acreditar que ela, a personagem do artigo, terá nova oportunidade em outra vida.
    Grande beijo, minha irmã.

    • Obrigada =]

      Muito complexo esse assunto da liberdade, de fato. Tantos enganos contidos nesse tema, né? Aos poucos vamos aumentando essa discussão e abrindo novas possibilidades de compreensão 😉

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