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A Garota Dinamarquesa

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Escrito por Maya Lakshmi

A Garota Dinamarquesa (2015), recebeu críticas muito boas e foi vencedor do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander). Ele é uma cinebiografia inspirado na história das pintoras Lili Elbe e Gerda Wegener.

Lili Elbe nasceu oficialmente em 1930, num corpo de uma pessoa de 47 anos. Nasceu por meio de arriscadas cirurgias de redesignação sexual, tentando concretizar fisicamente o que sempre soube em seu íntimo: era uma mulher.

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Essa é a realidade de muitas pessoas que, em sua essência, pertencem ao sexo oposto de seu nascimento. Na época de Lili ela foi uma pioneira e ajudou muito a expandir as fronteiras da ciência. Para não dar spoilers, nessa resenha eu quero me deter em dois aspectos que permeiam as personagens dessa história: amor e coragem.

Quem assistiu ao filme deverá concordar comigo que a força de Gerda é da ordem do absurdo. Ela foi casada com Einar Wegener, pintor que descobriu (ou assumiu) sua verdadeira identidade de gênero quando posava para a esposa com roupas femininas. De início parecia uma brincadeira inocente, mas tanto no filme quanto no livro* que Lili escreveu fica claro que o primeiro momento em que Einar coloca-se numa posição feminina, segurando um vestido, há um instante de profunda transformação pessoal. Talvez tenha sido algo como um reencontro com sua essência, um choque da realidade que ele mesmo foi se forçando a esquecer.

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Daí em diante Einar vai deixando de existir em pequenos detalhes, enquanto Lili vai delineando sua personalidade, sua autenticidade. Em 1930, alguém com esse quadro clínico não seria dificilmente considerado louco. Lili teve que passar por muitos médicos até encontrar alguém que acreditasse em sua existência como algo real e não patológico. Em todo esse processo de nascimento de si mesma, Lili foi acompanhada por Gerda, que  foi involuntariamente se tornando amiga de Lili e ex-esposa de Einar.

Imaginem quão surreal é perder seu cônjuge, diante dos seus olhos, vê-lo assumir uma identidade feminina, vê-lo sofrer de todas as formas possíveis. E o mais impactante de tudo é que Gerda se mantém ao seu lado, porque aquele amor que ela sentia por Einar não se resumia a ele ser ou não um homem; ela amava aquele ser humano de uma forma integral. Essa talvez seja uma das formas mais genuínas de amor: permanecer ao lado de alguém mesmo quando essa pessoa frustra sua vontade. É um tipo puro de amor, algo entre almas e não entre personalidades. Os gregos, que possuíam palavras diferentes para tipos diversos de amor, chamariam o de Gerda por Lili de ágape. Esse amor é entrega incondicional.

A monja Jetsunma Tenzin Palmo explica a diferença entre amor genuíno e amor romântico neste vídeo e nos mostra o quanto nossa concepção de amor está distorcida por apegos do nosso ego.

Apego diz: Eu te amo, por isso quero que você me faça feliz.

Amor genuíno diz: Eu te amo, por isso quero que você seja feliz.

Poucas histórias conseguiram exemplificar de forma tão brilhante o que é, de fato, amar alguém para além das necessidades de seu ego. É importante apenas fazer um adendo aqui: não vamos confundir isso com submissão. Estar submisso a alguém é se manter sob o pesado jugo do ego de outra pessoa, enquanto se ignora necessidades autênticas. No caso do filme o que temos é bem diferente. Lili precisava existir. Esse era o Eu Real que sempre habitou o íntimo de Einar. Se Gerda tentasse impedir essa transformação ela estaria querendo aprisionar um Einar que nunca foi totalmente real e que estava fadado a se autodestruir, pois Lili fica extremamente depressiva uma vez que se reconhece como mulher, mas ainda não aceita essa realidade existencial.

E por qual razão Gerda iria querer que Lili continuasse negando sua autenticidade? Por apego à identidade de Einar. Mas ela consegue ir além de si mesma, da falta que ela sente do marido e apoia Lili, pois reconhece que aquela era a sua verdadeira identidade e sua fonte de felicidade.

O que vemos nessa relação é uma mistura constante entre amor e coragem. Gerda foi extremamente corajosa de se manter ao lado de Lili, indo contra os preconceitos da sociedade da época e ao que poderiam pensar dela. Lili foi o exemplo máximo da coragem ao arriscar toda sua existência em métodos pouco conhecidos e, mais do que isso, em se assumir publicamente, servindo de exemplo para muitas pessoas que passaram por esse processo daí em diante.

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E há profundo amor de Lili para consigo mesma. Sem isso essa transformação não seria possível. Se ela tivesse se rejeitado jamais seria viável enfrentar o mundo, jamais conheceríamos essa história. Auto-amor é algo essencial para termos disposição de travar nossas lutas diárias, sejam elas grandes ou corriqueiras. É preciso aceitar quem nós somos em nosso íntimo e existir a partir desse núcleo de vida, de criatividade e de potencialidade infinita. Lili nos ajuda a redespertar esse amor próprio, a recordar seu papel em nossas vidas. Se ela não tivesse se permitido amar quem era em sua integralidade nunca poderia ter despertado aceitação externa, compreendem? O primeiro passo está em nós.

E, de certa forma, Lili também amou Gerda de forma integral, pois teve honestidade absoluta, mesmo diante da dor que iria lhe causar. Ter se mantido na sombra seria impedir Gerda de conhecer a verdade, seria prendê-la a uma mentira. E a desonestidade é uma forma de desamor.

Para terminar essa resenha eu quero compartilhar com vocês a etimologia da palavra coragem. Vinda do latim, ela é a junção de dois termos e significa: ação do coração. E não é exatamente isso que Lili e Gerda nos demonstram tão bem? Hoje em dia nós conseguimos encontrar a singularidade dessas duas palavras, mas o fato é que ter coragem, em essência, é agir com amor.

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*Em seu livro, Man into woman: the first sex change – A portrait of Lili Elbe, Lili revela que em sua primeira cirurgia os médicos encontraram ovários subdesenvolvidos. Isso a tornaria, então, uma pessoa intersexo, ou seja, alguém com uma anatomia que não é 100% feminina ou masculina. Como no cinema ela foi tratada exclusivamente como uma mulher transexual e essa é uma resenha do filme, não farei essa discussão. Contudo, considerei importante assinalar essa questão e instigá-los a procurar mais esse vasto assunto da intersexualidade e transexualidade, pois nunca é demais dizer que sabemos muito pouco (ou quase nada) sobre a diversidade que compõe o nosso mundo. 

Ficha Técnica

The Danish Girl (2015)

Direção: Tom Hooper

Atores: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts.

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

2 Comentários

  • Estou encantada com sua resenha sobre esse filme! Para além do seu olhar clínico, enxergo um ser com muita sensibilidade para perceber as mais delicadas nuances do comportamento humano, e isso, só mesmo seres dotados de igual profundidade e delicadeza conseguem fazer.
    Adorei ver a foto da Lili da vida real e gostei demais do vídeo da maravilhosa Tenzin Palmo, ela fala em poucas palavras algo que às vezes levamos vidas inteiras para compreender.
    ;**

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