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Mandela: paciência, jardinagem e diálogo com seus opressores

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Escrito por Maya Lakshmi

Como prometido, vamos continuar aprendendo mais um pouquinho com Nelson Mandela =]

No post passado eu falei sobre autoconfiança, poder pessoal e neste texto eu quero compartilhar com vocês duas características que ele desenvolveu, em grande parte, ao longo dos 27 anos de prisão. A primeira delas é o prazer (e poderia dizer a necessidade) que ele tinha de cultivar um jardim e uma horta.

Quanto mais tempo seu confinamento durava, mais confiança e “liberdade” ele ganhava dos guardas, então foi possível que lhe permitissem ter um pequenino pedaço de terra para cultivar. Interessante mencionar que ele dava aos guardas os frutos da sua horta, além de pedir que batatas e tomates, por exemplo, fossem usadas para incrementar o almoço de domingo.

Cultivando um pedaço de terra – descobrindo um amor pelo solo e pelo plantio em comum com seus carcereiros -, Mandela desenvolveu percepções importantes sobre a qualidade da paciência e da cooperação, bem como das adaptações e aceitações, necessárias numa posição de domínio, inclusive autodomínio. p. 182

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Jardim na prisão da Ilha Robben

O seu pedacinho de terra não deixava de ser para ele uma forma de participar ativamente do mundo, de ser um ato de sua escolha em meio a infinitas rotinas impostas. E, principalmente, era uma forma dele se sentir conectado ao solo da sua amada África do Sul. Mas é claro que podemos analisar que a sua conhecida paciência e diplomacia se associam perfeitamente a essa imagem de um homem que sabe plantar, apostar na potencialidade da semente e do solo de fazerem crescer ali um fruto e, mais importante, saber esperar o tempo propício de colher.

E da sua jardinagem chegamos em uma característica que lhe foi essencial para que ele se tornasse um dos políticos mais importantes da história: sua capacidade de enxergar seus opositores como seres humanos multidimensionais.

[…] vemos que foi na prisão que ele abandonou decisivamente as ideias previamente recebidas que tomavam a luta política como conflito polarizado em termos raciais. p. 182

Sobre assuntos de interesse comum (luta armada, negociação, reconciliação), ele sabia falar clara e diretamente a seu povo. Mas, em algumas situações, sua construção do consenso significava que, controversamente, ele se dava ao trabalho de enxergar o conflito do ponto de vista do outro, e não só de seu próprio partido. p. 189

Mandela foi um exemplo de paciência e humildade (virtude que inclui saber o valor que se tem enquanto ser humano, vale ressaltar). Ele recebeu inúmeros políticos em sua cela, personalidades fortemente responsáveis pela segregação racial em seu país e, mesmo assim, soube tecer diálogos longos com eles e estabelecer relações diplomáticas que foram decisivas para sua libertação e vitória nas eleições presidenciais.

Transitando por várias situações de interação pessoal, Mandela passou cada vez mais a tratar os outros não como integrantes de certo grupo ou partido, mas, em primeiro lugar e acima de tudo, como seres humanos, como agentes imprevisíveis, complexos, mas sempre éticos (ou potencialmente éticos). Passou a se interessar mais pela semelhança do que pela diferença: concentrou-se na interação, não na distinção ou separação. p. 193

Que grande ensinamento, não é mesmo?! Se nossos políticos e se nós mesmos tivéssemos a disponibilidade de descer das nossas posturas autocentradas para ver o mundo de forma mais ampliada, de nos enxergarmos a partir de uma lente que vê as semelhanças de forma reluzente e aumentada, e transformar as diferenças em detalhes importantes (mas não totalizantes), ah como isso seria maravilhoso!

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Mas como uma pessoa enrijecida, dura consigo mesma, cheia de incongruências e proibições pode aceitar justamente aquilo que lhe toca a ferida que ela luta para não ver em si mesma? Não temos o poder de mudar ninguém, então vamos ter a persistência, coragem e esperança de cultivar em nós as qualidades que queremos ter.

Essa postura de Mandela diante de seus opressores, dos que pensavam radicalmente diferente dele, nos serve bastante de exemplo ao momento que vivemos em nosso país. Não é um partido, uma pessoa, uma única ideia que muda uma situação política que começou a ser tecida centenas de anos atrás (e já teve como marco um “descobrimento” bastante torto, convenhamos).

O diálogo, a comunhão com o diferente, a inclusão da voz dos oprimidos e, sobretudo, a não polarização das discussões é algo que podemos aprender com Mandela. Que exemplos como este possam tocar nossos corações ao ponto de modificar nossas atitudes! ;-]

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*Este texto teve como referência o livro Mandela: O Homem, a História e o Mito, escrito por Elleke Boehmer.

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

2 Comentários

  • No filme “Invictus” eu entendi melhor como funcionava a habilidade diplomática de Mandela. Era em simples atitudes cotidianas que ele demonstrava seu respeito pelo outro e isso o tornava majestoso. Leon Tolstoi retrata exatamente isso em sua célebre frase “Não existe grandeza quando não há simplicidade”.
    Excelente artigo, minha irmã! Que a energia da compreensão e do afeto possa tocar os corações de nossa sociedade, que anda tão autocentrada e agressiva.

    • A verdadeira grandeza da alma só pode ser reconhecida em sua delicadeza, em sua simplicidade.

      Ainda preciso assistir a esse filme >__< Obrigada por me lembrar dele e pelo seu comentário tão gentil e sábio =]

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