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O Segredo dos Seus Olhos

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Escrito por Maya Lakshmi

Impossível falar desse filme de forma consistente sem mencionar as surpresas que ele carrega. Então quando chegar à parte de spoilers eu avisarei. E você, que ainda não assistiu ao filme, vai correndo ter uma experiência intensa e reflexiva (disponível no Netflix) e depois vem terminar de ler o texto. Combinado?

O segredo dos seus olhos é, sem dúvida, um dos meus filmes preferidos em todos os sentidos. Atuação, direção, roteiro – tudo se encaixa numa trama de sentimentos inquietantes e extremamente bem orquestrados.

Algo que você descobrirá logo nas primeiras cenas, e que me permitirei contar, é que este filme gira em torno de um crime ocorrido décadas atrás: o estupro e assassinato de Liliana Colotto. O desfecho desse caso é algo que vamos conhecendo aos poucos, junto com a apresentação dos personagens principais, envolvidos na investigação dessa barbárie: Benjamín Espósito (ex-servidor da justiça penal, agora aposentado), sua chefe Irene Hastings e seu melhor amigo, Pablo Sandoval.

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O filme é uma mistura de passado e presente, tempos diferentes, mas tecidos com uma mesma linha de amargura, perda, arrependimento e também do desejo de se ter feito escolhas em outra direção.

Aos poucos será permito ao público compreender porque a vida dessas pessoas está da forma que está: insatisfeita. Voltamos à época do crime, à juventude dos personagens principais para conhecer quem eles eram e porque permitiram que suas vidas tomassem o rumo atual.

O melhor desse filme, mesmo quando ainda não sabemos de seu defecho, é saber que por mais que 25 anos tenham se passado, mesmo que um tanto envelhecidos, as pessoas ainda podem fazer outras escolhas e salvar a vida que lhes resta de ser comandada por temores.

Bem, aqui começam os SPOILERS.

Algo marcante nesse filme e que pode parecer uma insignificância diante do final é o simples detalhe do “Temo” e “Te amo”. Vamos pensar um pouco sobre isso.

Uma das primeiras cenas é a do Benjamín acordando no meio da noite e escrevendo “temo” num papel. Ele não sabe o motivo disso, mesmo quando Irene lhe questiona o porquê dele ter escrito essa palavra. Quando voltamos ao passado descobrimos uma máquina de escrever cuja letra A não obedece aos comandos de quem a usa. Isso poderia ser só um detalhe qualquer, mas não é. Quando Benjamín decide retomar o passado, olhar a fundo para o que mudou sua vida, ele abre uma possibilidade: a de escrever seu futuro com sentimentos novos que não mais o medo de arriscar, medo de sair de seu lugar de “conforto”. Um exemplo disso é ele decidir, já bem no final, que não ficará acorrentado ao que poderia ter sido com Irene, mas que vai finalmente assumir o que sente por ela, ainda que isso contenha a possibilidade de rejeição. Ele arrisca incluir a letra A em sua vida e transmuta o “temo” em “te amo”.

ojosConsidero que o diretor foi extremamente feliz em ter incluído esse pequeno gesto ao filme. Anos depois de tê-lo assistido, quando penso em O segredo dos seus olhos, sempre recordo a imagem forte de uma escolha, canalizada nessa metáfora, da coragem de trocar nossos temores por mais amor em nossas vidas.

Não poderia terminar de falar sobre esse filme sem mencionar o quão comovente é a história de Morales. Na cena da estação de trem, quando Benjamín o encontra um ano depois da morte de sua esposa, ele conta que viu nos olhos do homem em luto um estado de puro amor e era como se ele tivesse congelado no tempo.

De fato é isso que vemos. Algumas pessoas poderiam argumentar que gostariam de amar (e serem amadas) dessa forma absoluta, entregando sua vida por completo ao outro. Eu, pelo contrário, acho isso bem complicado. Imaginando que sua esposa pudesse vê-lo após sua partida desta dimensão, será que ela ficaria feliz com o rumo que seu marido deu para o resto de sua vida? Ele ficou tão congelado no tempo e na vingança que nunca se permitiu viver, de fato, um dia sequer desde aquele trágico momento.

Amor é entrega? Claro. Amor é posse, veneração, algo que preenche a totalidade da sua existência? Não. Isso é um tipo de obsessão, de autoalienação. Morales não deixou nenhum espaço em si de onde pudesse recomeçar a viver depois da sua perda. Provavelmente ele projetou toda a sua energia, alegria, todos os seus sonhos em outro ser humano. Talvez ele fosse daqueles que se sentem e acreditam ser incompletos sem o amor de sua vida e assim fica impossível mesmo viver com uma metade inteira de si faltando. Agora, quando podemos ser completos em nós mesmos, o amor que chega vem para transbordar a nossa alegria, vem para dividir dores e multiplicar felicidade, mas não para ser a fonte absoluta de nada em nós. Percebe a diferença?

O segredo dos seus olhos tem a capacidade de nos fazer refletir sobre uma infinidade de questões humanas, nos faz perguntar: o que eu faria no lugar de Morales?

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Último comentário sobre o filme é dessa cena em que Irene afirma ser incompetente de olhar para o passado, justamente por ter sido sempre alguém que olha para futuro. Importante pensarmos sobre essa afirmação, que já ouvi de diversas pessoas em várias ocasiões. Há todo tipo de desculpa para não se querer olhar para quem fomos e para o que aconteceu. Mas o medo, talvez, seja o mais possível de fazer sentido nessa recusa. Seja o medo de admitirmos nossas falhas, medo de olhar para alguém que amamos (e nos fez algum tipo de mal) e reavivar mágoas, medo de encontrar velhos fantasmas como o de oportunidades perdidas, a saudade do que hoje nos é inacessível (como entes queridos que já morreram)… Enfim, são infinitas possibilidades. Mas veja, é essencial desenvolver a força de olhar para o passado quando é nele que há respostas importantes para nossos sofrimentos e insatisfações atuais. No início desse retorno podemos lembrar de fatos e momentos apenas num nível cognitivo, o que já é um grande passo, mas a mudança real acontece quando nos permitimos acessar emocionalmente as situações que precisamos resgatar, elaborar construtivamente (compreendendo, aceitando, perdoando, vendo tudo de um ângulo mais amadurecido da pessoa que somos hoje), até que o passado não tenha mais o peso do aprisionamento. Este assunto é bastante complexo e certamente falarei dele em outras ocasiões.

Para encerrar essa resenha eu apenas desejo que um filme como este possa ter te emocionado de uma forma positiva, que a mensagem final dele (e não o seu clima de amargura e injustiça) seja o que realmente fique de lembrança: sempre é tempo de mudança, de fazer escolhas que nos libertem do medo e tragam mais amor para nossas vidas.

Ficha técnica

El secreto de tus ojos (2009)

Direção:  Juan José Campanella

Atores: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella, Pablo Rago.

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

3 Comentários

  • Eita pau, Pereira! Eu adorei esse filme, mas não captei todas as nuances e os detalhes quando assisti. Só prestei atenção na baixaria e na tensão, além das emoções mil. Perdoe minha plebeidade. Ademais, eu sou fã irredutível do Ricardo Darín! Adoro os filmes dele.

    • Haahahah, pois é, este é um filme para se ver com muita calma e de preferência mais de uma vez, pois são suas sutilezas (como os olhares “enigmáticos”) que vão dando o tom de magia épica que ele possui. Ricardo Darín é fantástico mesmo!

  • Eis um filme que vem para dar alguns tapas na cara muito bem dados! Não é um drama fácil de acompanhar, tem cenas e emoções fortes, mas sem dúvidas é um filme que ensina demais. Adorei a análise, mana!

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