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Mandela: uma lição sobre autoconfiança

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Escrito por Maya Lakshmi

Há milhares de fatos, contradições, feitos que se poderiam abordar para falar sobre este homem, mas da sua biografia (Elleke Boehmer, 2013) eu gostaria de falar apenas de uma característica de sua personalidade que foi essencial para que ele se tornasse um mito.

Mandela ficou preso por 27 anos. Quase dez mil dias. Antes da prisão ele era um jovem ativista político, imerso na luta pelo fim da dominação branca na África do Sul. Após a prisão ele já era um mito, considerado um pai para a sua nação e logo se tornou o primeiro presidente negro de um país livre e democrático. Ganhador do prêmio Nobel da Paz e considerado um dos líderes políticos mais importantes do mundo.

Sabemos que a História é escrita pelos vencedores, não é? Por exemplo: o que você realmente sabe sobre o continente africano? Mas… o que você sabe sobre a Europa? Muito mais, imagino. Ideologias e supremacia política determinam em grande parte o que vamos conhecer sobre uma determinada realidade. Sobre isso, a autora desta biografia diz:

O impacto do colonialismo nessa história foi o de excluir rotineiramente a subjetividade africana das versões oficiais do progresso histórico europeu: no discurso colonial, a África costumava significar o vazio, um coração das trevas ou mera matéria bruta e escravidão. (p. 25)

Talvez você nem saiba disso, mas Mandela nasceu no interior, bem isolado da segregação branca dos centros urbanos da África do Sul. E, além do mais, ele pertencia a um clã real. Ter vivido e formado as bases da sua personalidade a partir da perspectiva de que ele possuía grande valor fez toda a diferença para tudo que ele enfrentou em sua trajetória.

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Assim, até chegar a Johannesburgo, Mandela, que efetivamente era um membro de duas elites sobrepostas, a tembu e a da escola missionária, raramente fora objeto de olhares depreciativos dos brancos. Mesmo então, na escola e na universidade, a imagem que tinha de si mesmo era reforçada pelo fato de integrar diferentes comunidades negras de espírito independente. (p. 47)

Autoconfiança, poder pessoal, a crença e o sentimento de seu valor, de que sua existência não apenas era de igual importância a de qualquer outro ser humano, mas de que ele possuía em si potencialidades grandiosas. Ter se formado em um ambiente saudável (e o incentivo de sua realeza tribal), longe do preconceito racial foi essencial para que Mandela chegasse, já adolescente, em Johannesburgo e não se deixasse contaminar internamente pela depreciação dos colonizadores. Claro que ele reconhecia muito bem o que estava acontecendo, claro que ele sabia nitidamente que os brancos o consideravam inferior, mas o que realmente fez toda a diferença foi ele não ter acreditado neles. Mandela conhecia seu próprio valor porque lhe foi permitido acessá-lo desde a infância e um dos grandes marcos para que hoje possamos conhecer sua história é o fato de os colonizadores não terem conseguido fazê-lo duvidar da verdade que carregava em si: a dignidade de um ser humano não possui distinções raciais. 

A confiança pessoal de Mandela como sujeito moderno seria posta à prova no novo ambiente urbano de Johannesburgo, como quando se deparou com a bandeja de chá separada em seu primeiro emprego num escritório de advocacia. Mas sua confiança era suficientemente arraigada para não ficar muito abalada. (p. 47-8)

Nelson Mandela , militant contre l' Apartheid, futur president sud africain, ici quand il etait jeune vers 1950 --- Nelson Mandela, activist against Apartheid, here in his youth c. 1950

Isso, meus queridos, é uma grande lição para todos nós. Não importa o que a sociedade diga, se somos gordos ou magros demais, se somos mulheres, negros, índios, se somos homens que vivem na contramão do machismo ou se amamos pessoas do mesmo sexo. Não importa. Temos o nosso poder pessoal, temos o valor da nossa existência por ela mesma. Estamos aqui, somos parte desse grandioso universo e não precisamos provar nada para ninguém. O discurso dos opressores não precisa nos fazer duvidar da nossa força e riqueza interior. Ninguém possui maior ou menor valor que qualquer pessoa. Acreditar nisso é uma distorção da realidade. No final das contas nós todos carregamos uma chama da Vida e temos o direito de desfrutar do nosso lugar no mundo.

Existem dois outros aspectos da personalidade de Mandela, desenvolvidos durante os anos de cativeiro, que eu abordarei em um próximo texto. Seria impossível falar sobre essa biografia, uma dentre várias que tentam compreender como este homem se transformou em um mito, em uma única postagem. Então aguardem mais lições deste grande ser humano em breve!

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

8 Comentários

  • Oi Mayara ! Gostei muito do post. Vc já leu o livro A sociedade da neve? Creio q ele seja uma fonte rica para análise psicológica , pois é narrado pelos próprios sobreviventes. Fica a sugestão para alguma futura publicação.

    • Olá, Heloise =]

      Nunca li A sociedade da Neve, muito obrigada pela indicação. Certamente buscarei conhecer essa obra e algum dia você a verá por aqui com os devidos créditos da sua contribuição para site ^^

  • Faz um tempo que quero conhecer Mandela, e acho que esse livro pode ser um bom começo. Nunca tive vontade de ler biografias, mas recentemente li uma autobiografia filosófica e gostei muito da forma como esse professor de filosofia inglês (Colin McGinn) deu uma perspectiva pessoal ao ofício. Nenhuma surpresa com a qualidade do texto, Swu. Obrigado pela dica.

    • Ivens, a indicação de ler biografias veio dos meus professores humanistas, que diziam ser importante expandir o horizonte, calejar nossa visão de mundo com experiências mais diversas. E, de fato, é sempre muito rico conhecer o universo de vida de outras pessoas. Autobiografias então, nem se fala, é uma fonte riquíssima de crescimento pessoal (e profissional).

      E eu que agradeço sua contribuição ao site =]

  • Excelente texto, são reflexões assim que necessitamos diariamente em nosso meio para quebrar essas falsas verdades vendidas por todos, bem como os padrões e perfis de ideal!

    • Manel! =]

      Obrigada por sua visita e contribuição ao ‘Caminhos Terapêuticos’. Feliz que as reflexões dessa obra estejam ganhando vida própria e alcançando outras mentes inquietas ^^

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