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O Labirinto do Fauno

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Escrito por Maya Lakshmi

Sabe um filme que te surpreende em cada cena? Pois é, este é absolutamente um deles.

Apesar de ser um filme um pouco antigo, de 2006, o revi recentemente e percebi o quanto sua estética é inovadora e sua originalidade permanece muito atual. O enredo é sobre uma garota chamada Ophelia que no ano de 1944 se muda com sua mãe para o interior da Espanha, para viver com seu padrasto, um terrível capitão do exército franquista. Nos arredores de sua nova casa ela descobre um labirinto, onde dizem viver um Fauno. A protagonista vai sendo conduzida por elementos mágicos até seu encontro com esse ser mítico que revela para Ophelia sua verdadeira identidade: ela é uma princesa perdida que tem a chance de voltar para seu reino se cumprir três missões que serão passadas pelo Fauno. E é assim que a sua dura realidade vai sendo costurada com fortes cenas de magia, e vamos conhecendo a coragem dessa garota e a riqueza do universo criado por esse filme inesquecível.

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Escolhi apenas uma cena para destacar neste texto. O cenário é  simples: Ophelia tem que usar um giz para desenhar na parede de seu quarto, onde está presa, uma porta que a leva para uma das missões que o Fauno passou.

Quão mágico seria ter um giz desses, não é mesmo? Mas um detalhe importante é que há uma ampulheta, com grãos apressados, marcando seu tempo de retorno. Se ela falhar em voltar antes do último grão de areia cair, ela ficará presa num lugar terrível.

Vamos pensar um pouco sobre os elementos dessa cena.

Giz mágico – ok, não temos um giz com a capacidade de nos transportar para outras realidades, mas temos nossas escolhas, nossos pensamentos. Quantas vezes você já se encontrou em ambientes que não te fazem bem ou manteve relacionamentos (seja de amizade, colegas profissionais, vínculos amorosos…) e se sentia preso a eles? Quando o Fauno diz que Ophelia precisa ir para outro lugar e ela diz que a porta está trancada, ele simplesmente lhe mostra o giz e fala: construa sua própria porta. Você pode estar esperando pelo Fauno te entregar o giz mágico, mas isso nunca vai acontecer. No nosso mundo precisamos ter a coragem de construir nossas saídas por nossa própria conta em risco. O nome disso é: responsabilidade.

Então se os lugares que você está frequentando e/ou as pessoas com quem anda se relacionando são como o quarto de Ophelia que te prendem, saiba que sempre há uma saída. Ela pode não ser rápida como gostaríamos, mas com calma, vontade e talvez um pedido de ajuda oportuno, você pode se libertar de todas as prisões que não mais cabem a grandeza da sua alma.

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Outra face que essa mesma cena pode conter é o deslumbre com possibilidades de fuga. Como assim? Imagine-se no lugar dessa personagem. Você está presa e te entregam uma saída rápida e mágica. Ela acata tudo sem questionar, e quando chega ao lugar da missão realmente sofre as consequências do seu encantamento desmedido. Não falarei muito do que acontece em si para não estragar essa cena para quem não viu o filme ainda. Mas é fato que a menina, por imaturidade, se encanta com tudo que lhe é apresentado e tem que sofrer as consequências disso. A fuga, no caso de pessoas adultas, com inúmeras obrigações e complexidades que envolvem cada escolha, dificilmente será uma possibilidade rápida que apareça. Pois quando temos uma lição para aprender com algo, por mais que a gente mude de casa, de casamento, de país, uma situação semelhante a qual nos afugentou irá se repetir em nosso caminho e ficaremos nesse ciclo sem fim de replay, até que tenhamos a capacidade de parar e descobrir qual é a lição, qual é o nosso grau de responsabilidade com essa realidade que se apresenta insistentemente.

Então eu diria para desconfiar das fugas mágicas. Às vezes tudo que precisamos é de um tempo de distância ou de uma mudança radical, mas se você está tentando mudar um sentimento que te acompanha há um bom tempo, ele dificilmente irá sumir com uma fuga. Em geral, essas repetições precisam de uma resolução efetiva em termos de compreender quem nós somos ali, naquele quarto de Ophelia e, então, quando isso acontece ganhamos a capacidade de encontrar, dentro de nós, a chave que parecia estar escondida.

A ampulheta está contando, para ela e para todos nós.

Com essa frase, que não precisa ter um tom trágico (se soubermos dar a importância correta para cada minuto que temos ao nosso dispor), termino este texto.

Ficha Técnica

El laberinto del fauno (2006)

Direção: Guilhermo Del Toro.

Atores: Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López e Maribel Verdú.

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

2 Comentários

  • Labirinto do fauno, mexeu comigo de forma profunda. De cara tornou-se um dos meus filmes favoritos. Repleto de mensagens do inconsciente e símbolos que me encantam. Lindo texto Suu, lúcido e sensível. Muito feliz de ler um texto assim, de um filme que gosto tanto.

    • Owm, Ari, que bom que gostou. Seu crivo para filmes, textos e simbologias é afiado, então me sinto honrada demais com seu comentário. Gratidão! =]

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