Arte Cinema Psicologia Transpessoal

O quarto de Jack

olhando para a luz
Escrito por Maya Lakshmi

Escolhi um domingo ensolarado para ver O quarto de Jack. Adiei esse filme por duas semanas, sabia da melancolia que me esperava. Assim que acabou eu estava em outra dimensão. As atuações, a direção, a fotografia, tudo faz você entrar no universo angustiante desses personagens.

Não mentirei: foi um filme doloroso, revoltante, maravilhoso, comovente, genial em vários sentidos. E, claro, nada fácil de digerir.

Pelo trailer você já sabe da trama principal e de parte importante de seu desfecho, então não poderia escrever sobre esse filme sem citar o que algumas pessoas podem considerar spoilers. Se você quer ter uma experiência absolutamente profunda e entrar nessa história sem saber nada do que te espera, boa sorte meu amigo. Depois volte aqui e diga o que achou.

Da minha parte, ter visto o trailer e lido resenhas acerca da trama foi algo essencial para que eu suportasse essa experiência estética.

O quarto de Jack fala sobre o absurdo de uma mãe que cria seu filho até os cinco anos em um pequeno quarto. Sim, ela foi sequestrada, Jack é filho do seu algoz e até os seus cinco anos essa mãe resolve dizer que aquele quarto é todo o mundo e que a comida e as roupas que chegam até eles aparecem por mágica, vindas da televisão.

Aos poucos vamos compreendendo a dimensão da dor que essa mulher tem que experienciar todos os dias, a sua força em criar um filho nessas condições e vamos nos afeiçoando intensamente ao pequeno e corajoso Jack.

room poster

O que preciso destacar sobre essa história é o que acontece com Joy, essa jovem mulher de 24 anos, cujo nome só conhecemos quando ela começa a planejar sua libertação. Joy foi sequestrada aos 17 anos e nas primeiras cenas tudo que sabemos é que ela é absurdamente forte por conseguir ter com Jack uma relação saudável e até feliz, para todas as suas condições.

Quando ela arquiteta a sua fuga é a primeira vez que diz ao filho seu nome e conta um pouco do que lhe aconteceu. Daí em diante, quando ambos estão a salvo no hospital, a vemos aproveitando ao máximo a experiência de tomar um banho de chuveiro, de comer panquecas, de mostrar ao filho o mundo fora do quarto. E é o pequeno Jack que tem mais dificuldade nesse início, estranha tudo e sente falta do seu mundinho conhecido.

Quando o filho começa a se adaptar a existência de outras pessoas, ao fato de que existe uma realidade além de tudo que ele havia visto, é Joy quem começa a apresentar dificuldades de adaptação.

Vamos vendo que ela sente raiva pelo que lhe aconteceu, tenta culpar sua mãe em uma discussão e vai definhando para dentro de si mesma, para a amargura de ser uma sobrevivente de uma história terrível, e por não ter mais uma vida normal para a qual voltar.

Minha sensação é de que ela, assim que se viu livre, acreditou ser possível voltar para a casa dos pais e seguir dali em diante. Mas a realidade começa a lhe chegar em pequenas doses dolorosas. Seus pais estão separados, seu antigo quarto parece ser um memorial fúnebre da menina que ela era quando foi sequestrada e do que poderia ter sido senão tivesse sido interrompida pelo traumático evento que mudou tudo.

Esse retorno ao mundo não é fácil para Joy e não deveria mesmo ser fácil para ninguém que passasse por um terço do que ela viveu. O fato é que sobreviventes de doenças, de acidentes, separações, morte de pessoas importantes, terão sempre de recriar um retorno ao mundo.

A pessoa que éramos antes de um grande evento, seja ele negativo ou não, nunca mais poderá ser exatamente a pessoa que nos tornamos depois. Quanto antes nos permitimos acessar essas mudanças e aceitar que a Vida é feita de momentos impermanentes, mais fácil poderemos viver o que nos aguarda do outro lado de uma forma construtiva.

Inicialmente, o que acontece com Joy é uma depressão e uma tentativa de fugir de seu novo aprisionamento: a pessoa amarga que ela se tornou por suas perdas.

Belamente conduzido pela doce atuação de Jacob Tremblay, vemos que Jack se recupera muito mais fácil, por que ele não tinha os sonhos de um futuro roubado para lhe atormentar. E é com sua simplicidade de criança que ele mostra para sua mãe as possibilidades que o mundo ainda guarda para eles.

jack e joy

Termino essa resenha pedindo que vocês observem a si mesmos e a todos ao redor e vejam se é a amargura ou a esperança que tem dominado suas emoções. Observar alguém que passou por uma grande mudança, estar atento a sinais de depressão, pode salvar uma pessoa da fuga mais dolorosa e irrevogável que existe – o suicídio.

Cuidem de si mesmos e daqueles que amam com atenção e sempre que for necessário procurem a ajuda de uma pessoa habilitada a ouvir, acolher e auxiliar nessas grandes transições da nossa aventura humana.

Ficha Técnica

Room (2015), lançado no Brasil com o nome de O quarto de Jack.

Direção: Lenny Abrahamson. O filme foi escrito por Emma Donoghue, autora do livro que inspirou a adaptação cinematográfica.

Atores: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, Sean Bridgers e William H. Macy.

Sobre a autora

Maya Lakshmi

Psicóloga, Terapeuta Transpessoal, ThetaHealer, Life Coach, facilitadora de círculos de Mulheres, estuda os Movimentos de Resgate ao Sagrado Feminino e o Método de Autoconhecimento Pathwork.

3 Comentários

  • Massa, Swu! Muito bom. Vi o filme ontem. Lembrei de você. Gostei muito desse filme, para além dos evidentes insights psicológicos. O Jack encarna a experiência do ‘thauma’, do espanto que origina a convulsão filosófica na alma. Acho que uma das partes mais instigantes, para mim, é quando ele sai do hospital e, em um daqueles monólogos narrativos, diz que o mundo “tem portas, e mais portas. E por trás de cada porta tem outro lado de dentro. E um outro lado de fora. E as coisas acontecem acontecendo. Nunca para.” As coisas acontecem acontecendo! Ele descobre o tempo. Muito bom. Além, claro, dos aspectos estéticos do filme. Muito bonito. E angustiante. A primeira parte me lembrou um pouco um dos filmes mais angustiantes (se não o mais angustiante) que eu já vi: O escafandro e a borboleta.

    • Este filme é difícil de digerir, mas de fato tem um monte de detalhes inspiradores, como este do tempo e do espaço sendo descobertos por Jack. A expressão dele, que até aparece no trailer, olhando o céu em sua amplitude pela primeira vez é de um deslumbre tão comovente. Essa produção entrou para a lista das mais impactantes, tanto num aspecto de luz quanto de sombra. Quão raro é um único filme ser capaz de produzir tantas percepções?

      Obrigada por seu comentário e seja muito bem-vindo aos Caminhos Terapêuticos! =]

    • Ivens, agora que você citou o Escafandro e a Borboleta, lembrei que a primeira vez que tentei assistir, não consegui. Sentia tanta empatia pelo personagem, por estar vivenciando na época uma rotina de hospitais e dependência da família, que fiquei com falta de ar. Foi um filme que demorei uns bons anos para finalmente encarar, já num outro contexto. Bem lembrado!

Deixe um comentário